“Gosto da empresa, mas trabalho para o meu coordenador”
Ontem fui retirar um carro alugado e o jovem que me atendeu comentou que a empresa estava iniciando um novo procedimento para registrar fotos de algumas partes do veículo antes da retirada. Comecei a conversar com ele sobre o processo e contei de um sinistro que tive recentemente com outro carro alugado.
Durante a conversa, ele falou sobre o seu coordenador e, de forma muito espontânea, disse algo que me chamou a atenção: “Eu tenho orgulho de trabalhar para ele, estou aqui para o que ele precisar. Gosto da empresa, mas trabalho para o meu coordenador.”
No primeiro dia de trabalho, ele ainda não tinha recebido uniforme e EPIs e foi trabalhar com sua própria roupa. Estava usando um tênis de sola larga, que utilizava para jogar basquete. Ao estacionar seu primeiro carro, o tênis ficou preso no acelerador e ele acabou batendo um dos veículos da empresa.
Quando foi contar o que havia acontecido, imaginou que aquele também seria seu último dia de trabalho. A reação do coordenador foi muito diferente do que ele esperava.
Conversou com o jovem, procurou entender a situação, pediu que ele ficasse tranquilo e deu alguns dias de folga até que seu uniforme e seus equipamentos chegassem. Quando voltou ao trabalho, ainda acreditando que poderia ser desligado, recebeu seus EPIs, seu uniforme e uma orientação sobre o que havia acontecido e como deveria trabalhar dali para frente.
Ele continuou na empresa.
Enquanto me contava essa história, dava para perceber que ele não havia esquecido como foi tratado naquele dia. A situação também ajuda a entender o que pesquisas sobre gestão mostram há bastante tempo. A Gallup estima que o gestor responde por cerca de 70% da variação no engajamento de uma equipe. É uma influência enorme para alguém que, muitas vezes, é lembrado principalmente pelas responsabilidades de organizar escala, acompanhar indicadores, cobrar resultados e resolver os problemas da operação.
A liderança também aparece na forma como alguém é recebido quando erra, na orientação dada a quem ainda está aprendendo e na segurança que um profissional encontra para continuar se desenvolvendo depois de uma experiência difícil.
Isso ganha ainda mais importância quando pensamos nas pessoas que estão chegando ao mercado de trabalho. A pesquisa global da Deloitte com mais de 23 mil profissionais das gerações Z e Millennial mostrou a importância que esses grupos atribuem às oportunidades de aprendizagem e desenvolvimento, ao sentido do trabalho e à presença de gestores capazes de orientar seu crescimento.
O jovem que me atendia ajuda a colocar esses dados em uma visão prática. Antes desse emprego, ele contou que fazia bicos e trabalhos informais. Agora tem um trabalho formal, gosta do que faz, fala com orgulho da empresa e do seu coordenador e tem a possibilidade de ajudar sua família.
Também pode se tornar uma referência para amigos e vizinhos que estão vivendo um momento parecido da vida. Por isso, acredito que uma boa liderança produz efeitos que vão além da relação entre gestor e colaborador.
Quando alguém mais experiente acolhe, orienta, cobra, dá segurança e cria condições para que um jovem aprenda trabalhando, existe uma transferência de conhecimento e de valores entre pessoas que estão em momentos diferentes da trajetória profissional.
A empresa ganha um profissional mais preparado e engajado. O jovem amplia repertório, renda, experiência e perspectivas. A família participa dessa evolução. E o mercado de trabalho passa a cumprir também uma função importante de aproximar diferentes gerações.
Isso não significa reduzir exigência ou transformar erros em algo sem consequência. No caso que ouvi, havia um erro e um prejuízo. O coordenador poderia orientar, responsabilizar e ensinar sem transformar aquele primeiro erro na definição da capacidade daquele jovem. Foi exatamente isso que ele fez.
Talvez por isso, meses depois, em uma conversa com uma pessoa que ele nunca tinha visto, aquele jovem ainda falasse com tanto respeito sobre seu coordenador. Eu fui até a Unidas para retirar um carro e saí de lá refletindo sobre a responsabilidade que temos quando lideramos pessoas, principalmente aquelas que ainda estão começando.