Quando subir o sarrafo?

Quando subir o sarrafo?

Tenho visto muitas pessoas esperando condições perfeitas para começar alguma coisa.

No cotidiano, isso aparece em frases até bem intencionadas. A pessoa não começa a correr porque ainda não tem o tênis que considera ideal. Adia um curso porque está esperando a rotina ficar mais tranquila. Deixa uma ideia de lado porque acredita que, em algum momento, terá mais tempo, mais segurança ou mais disposição.

No trabalho, as frases mudam, mas o comportamento pode ser muito parecido. “Precisamos vincular isso com aquilo primeiro.” “Antes, precisamos aprofundar mais algumas questões.” “Precisamos de mais tempo.” E, depois de mais tempo, quase sempre aparece a necessidade de mais tempo.

Também já ouvi a frase “se começarmos agora, ficará muita coisa porque teremos um evento no próximo mês” ser apresentada como uma razão para não começar. Dependendo do contexto, essa poderia ser exatamente a razão para iniciar algo novo.

É claro que decisões precisam de pesquisa, levantamento de dados, planejamento, definição de responsabilidades e análise de riscos. Tudo isso faz parte de uma boa execução e deveria estar incorporado ao trabalho básico de qualquer profissional. O problema começa quando esses cuidados deixam de preparar a ação e passam a ser usados para adiá-la.

Nem sempre essa resistência é consciente. Em muitos casos, ela se apresenta de forma racional, bem argumentada e até cuidadosa. A pessoa talvez não esteja tentando impedir a mudança. Pode estar protegendo uma forma conhecida de trabalhar, evitando a exposição a uma tarefa nova ou aguardando uma segurança que dificilmente existirá antes da prática.

O conforto momentâneo tem um custo. A organização perde tempo, deixa de testar soluções e demora mais para aprender. O profissional também perde, porque abre mão de situações que poderiam ampliar seu repertório, melhorar seu julgamento e desenvolver competências que nenhum curso consegue entregar sozinho.

A história de Thiago Braz na final olímpica do salto com vara, no Rio de Janeiro, ajuda a compreender esse ponto.

Ele disputava a medalha de ouro com o francês Renaud Lavillenie, campeão olímpico, recordista mundial e favorito da prova. No momento decisivo, Thiago pediu que o sarrafo fosse colocado a 6,03 metros. Era uma altura superior ao seu melhor resultado até aquele momento. Ele conseguiu superar a marca, estabeleceu um novo recorde olímpico e conquistou a medalha de ouro.

Thiago não tomou aquela decisão sem preparação. Havia anos de treinamento, técnica, acompanhamento e repetição. Mas também não tinha garantia de que conseguiria. Em determinado momento, foi necessário transformar toda a preparação em atitude, ele poderia não ter outra chance na vida de tentar aquilo.

Subir o sarrafo não significa agir sem responsabilidade. Significa reconhecer que o desenvolvimento exige desafios um pouco maiores do que aqueles que já sabemos superar.

No trabalho, raramente existe um sarrafo visível. Ele aparece na qualidade que escolhemos dar a uma entrega, mesmo quando ninguém está acompanhando de perto. Aparece quando preparamos melhor uma reunião, aprofundamos uma análise, revisamos um relatório, organizamos um processo ou assumimos uma tarefa que ainda exigirá aprendizado.

Há uma diferença importante entre fazer mais e simplesmente acumular trabalho. Fazer mais e melhor não significa aceitar todas as demandas, trabalhar sem limite ou criar complexidade desnecessária. Significa usar as oportunidades da rotina para ampliar a qualidade do que fazemos e a nossa capacidade de contribuir.

Uma apresentação pode ser feita apenas para cumprir uma agenda ou pode ser uma oportunidade de aprender a organizar melhor as ideias. Um relatório pode reproduzir os números do mês ou ajudar a interpretar o que eles mostram. Uma reunião pode terminar com uma conversa longa ou com decisões, responsáveis e prazos definidos. Um projeto novo pode ser tratado como uma ameaça à rotina ou como uma oportunidade de desenvolver competências que ainda não dominamos.

Esse aprendizado depende de prática.

Estudar ajuda, pesquisar ajuda e observar pessoas mais experientes ajuda muito. Mas existe um momento em que é preciso fazer, analisar o resultado, receber devolutivas e tentar novamente. É assim que boa parte da aprendizagem dos adultos acontece. A experiência, quando acompanhada de reflexão, transforma o trabalho em espaço de desenvolvimento.

Pesquisas sobre a passagem da intenção para a ação também mostram que planejamento, com definição de quando, onde e como algo será feito, aumentam as chances de execução. O planejamento cumpre sua função quando aproxima o início. Quando cria uma sequência ilimitada de condições anteriores, passa a produzir o efeito contrário.

Talvez por isso o momento ideal seja tão difícil de encontrar. Na maior parte das situações, ele não chega com todas as respostas, todos os recursos e nenhuma possibilidade de erro. O momento adequado costuma aparecer quando já temos informação suficiente para dar um primeiro passo responsável e uma forma de acompanhar, aprender e ajustar o que será feito.

Esperar certeza completa pode parecer prudência, mas também pode ser uma forma de evitar o desconforto do novo ou de uma mudança.

Vejo o trabalho como uma das principais oportunidades de autodesenvolvimento. Todos os dias surgem situações que permitem aprender a planejar, comunicar, executar, resolver problemas, lidar com pessoas, analisar dados e tomar decisões. Nem sempre essas oportunidades virão acompanhadas de um convite formal ou de alguém dizendo que chegou a hora de crescer.

Em muitos casos, o desenvolvimento começa quando decidimos entregar melhor do que entregaríamos no automático. O autodesenvolvimento depende da atitude de cada um em se dar a oportunidade de aprender ajudando a empresa a crescer ou melhorar o que já faz.

Isso não significa que todo desafio precisa ser aceito nem que todo projeto precisa começar imediatamente. Algumas situações realmente precisam de mais informações, recursos ou preparação. A reflexão necessária é outra. Precisamos distinguir aquilo que ainda não tem condições mínimas de execução daquilo que já poderia ter começado, mas continua parado atrás de novas justificativas.

Subir o sarrafo envolve preparação, escolha e prática. Envolve também aceitar que o aprendizado acontece enquanto fazemos e que nem toda condição necessária estará pronta antes do primeiro movimento.

Thiago Braz não sabia se ultrapassaria os 6,03 metros. Mas havia se preparado para chegar àquele momento e decidiu tentar.

No trabalho e na vida, talvez não tenhamos um estádio acompanhando cada tentativa. Ainda assim, todos os dias encontramos oportunidades de fazer mais e melhor, aprender alguma coisa nova e elevar um pouco o padrão do que entregamos.

A responsabilidade pelo nosso desenvolvimento também passa pela decisão de aproveitar essas oportunidades antes que o momento perfeito se transforme em mais uma razão para não começar.

Assista o vídeo no momento exato em que o Thiago salta o sarrafo.