A formação docente precisa ser tratada como projeto de Estado
A formação docente no Brasil chegou a um ponto que não permite mais respostas pontuais nem medidas voltadas à repercussão pública. Os resultados da Prova Nacional Docente, conhecida como Enem dos Professores, deram visibilidade a um cenário preocupante em que muitos profissionais que chegam às salas de aula não receberam a formação necessária para ensinar com segurança, domínio de conteúdo e repertório pedagógico.
Entre mais de 760 mil participantes, cerca de 266 mil ficaram abaixo do patamar mínimo de proficiência. Em Matemática, o resultado foi ainda mais grave, com mais da metade dos avaliados sem alcançar o nível básico definido pelo governo federal. Não se trata de culpar o professor individualmente. Em muitos casos, esse professor também foi vítima de uma trajetória educacional frágil, de licenciaturas pouco exigentes, de estágios formais demais, de baixa integração entre universidade e escola e de uma política nacional que, por décadas, não tratou a formação docente com a seriedade necessária.
Valorizar o professor não pode significar reduzir exigência. Significa justamente o contrário. Um país que leva seus professores a sério precisa garantir boa formação inicial, seleção adequada, carreira atrativa, formação em serviço, acompanhamento nos primeiros anos da profissão e condições adequadas de trabalho. Boa vontade importa, mas não substitui domínio do conteúdo, conhecimento didático, capacidade de avaliar aprendizagem, organizar boas aulas e lidar com estudantes em contextos muitas vezes difíceis.
A discussão precisa começar antes da licenciatura. Muitos jovens que chegam ao ensino superior carregam lacunas da educação básica. Quando esses jovens entram em cursos frágeis e depois retornam às escolas como professores, o país fecha um ciclo de baixa aprendizagem. A escola básica deficiente alimenta licenciaturas frágeis, e licenciaturas frágeis devolvem à escola básica profissionais que precisarão enfrentar desafios para os quais não foram suficientemente preparados. Romper esse ciclo exige ações em diferentes frentes.
A primeira frente é a formação básica de quem deseja ser professor. O estudante que escolhe a docência precisa chegar à licenciatura com condições de aprofundar conhecimentos. A segunda frente está nas universidades e faculdades formadoras, que precisam assumir maior responsabilidade sobre a qualidade dos cursos, a integração com a escola pública, a prática supervisionada e o domínio dos conteúdos que serão ensinados. A terceira frente está nas redes de ensino, que precisam apoiar quem já está na escola, inclusive professores em exercício que necessitam recompor lacunas, aprofundar saberes e receber formação em serviço conectada à sala de aula.
Essa formação em serviço não pode ser uma palestra por semestre ou uma sequência de encontros sem continuidade. Precisa nascer dos problemas da própria escola. Precisa olhar para dados de aprendizagem, planejamento, avaliações, gestão de sala, alfabetização, Matemática, leitura, escrita e acompanhamento dos estudantes. Coordenadores pedagógicos e diretores precisam desenvolver repertório para formar suas equipes. Se a escola é o lugar onde o professor trabalha, também precisa ser um lugar onde o professor continua aprendendo.
Outros países enfrentaram esse tema com mais consistência. Exemplos já difundidos que servem como referência, não como cópia descontextualizada, podem ajudar a identificar caminhos. A Finlândia tornou a formação docente altamente seletiva e profundamente vinculada à pesquisa e à prática profissional. Singapura estruturou uma política nacional de atração, formação, acompanhamento e desenvolvimento de professores, com forte investimento em carreira e formação contínua. O Japão combina formação inicial, ingresso regulado na profissão e cultura de desenvolvimento profissional dentro da escola, com práticas colaborativas de estudo de aula. Nenhum desses países melhorou a educação por acaso. Houve continuidade, método e compromisso público atravessando diferentes governos.
O Brasil não precisa copiar modelos prontos. Precisa aprender com a lógica que está na essência deles. Sistemas educacionais mais consistentes tratam professor como profissão estratégica. Não improvisam a formação. Não naturalizam licenciaturas ruins. Não deixam o professor iniciante sozinho. Não confundem diploma com preparo. Criam padrões, acompanham resultados, fortalecem instituições formadoras e constroem carreiras que atraem e mantêm bons profissionais.
Também é preciso ter cuidado com a educação a distância na formação docente. O problema não está em usar tecnologia. Tecnologia pode ampliar acesso, organizar estudos, apoiar acompanhamento e enriquecer percursos formativos. O risco aparece quando a formação de professores vira produto barato, escalável e distante da escola real. Ensinar exige observação, prática, devolutiva, presença, convivência e capacidade de lidar com crianças e jovens de verdade. A tecnologia deve apoiar a formação, não empobrecer sua dimensão profissional.
A Prova Nacional Docente pode ser um avanço se for usada como instrumento de diagnóstico e orientação de políticas. O exame, por si, não muda a formação docente. Mas pode ajudar o país a enxergar onde estão as maiores fragilidades, quais cursos precisam ser reestruturados, quais áreas demandam mais atenção e como as redes podem selecionar e apoiar melhor seus professores. Avaliar é importante. Usar os resultados com coragem é ainda mais.
Apesar da gravidade do cenário, existe um caminho. O Brasil tem universidades sérias, pesquisadores qualificados, redes públicas com boas experiências, professores comprometidos e organizações que já desenvolvem formação de qualidade. O problema é que essas iniciativas ainda convivem com descontinuidade, baixa escala, mudanças de prioridade a cada governo e pouca coordenação nacional. A formação docente precisa deixar de ser pauta de gestão e passar a ser compromisso de país.
Não resolveremos a formação de professores dentro de um único mandato. Nem em um programa isolado. Nem em uma prova nacional. Será necessário um plano de Estado, com metas claras, continuidade, financiamento, regulação, avaliação, apoio às universidades, fortalecimento das redes e formação em serviço articulada à realidade das escolas.
Se cada governo recomeçar do zero, continuaremos produzindo diagnósticos corretos e resultados insuficientes. A formação docente precisa atravessar mandatos, partidos, secretarias, universidades e redes de ensino. Precisa ser tratada como infraestrutura humana do país.
A educação brasileira ainda pode melhorar muito. Mas isso dependerá da coragem de enfrentar o tema que sustenta todos os outros: quem forma as crianças e jovens também precisa ser bem formado, acompanhado, valorizado e exigido.
Professor não é variável secundária da política educacional. É o centro da transformação para vivermos em um país mais justo e com menos desigualdades.