A escola também ensina o aluno a acreditar que consegue aprender

A escola também ensina o aluno a acreditar que consegue aprender

O relatório mais recente da OCDE sobre desempenho e mentalidade dos estudantes permite analisar os resultados do PISA por uma perspectiva mais ampla do que as notas.

Quando pensamos em aprendizagem, normalmente olhamos para aquilo que o estudante sabe. A OCDE acrescenta outra dimensão. O que ele acredita sobre a própria capacidade de aprender também importa.

No PISA, estudantes com mentalidade de crescimento são aqueles que entendem que inteligência e capacidade podem se desenvolver. Em média, eles apresentam melhores resultados, menor ansiedade em Matemática e maior relação com comportamentos como curiosidade e persistência. A associação é relevante entre os estudantes que estão nos níveis intermediários de desempenho.

O Brasil traz uma informação que considero particularmente interessante.

Nossos estudantes não demonstram falta de interesse em aprender. No PISA 2022, 66,8% disseram gostar de aprender coisas novas na escola, acima da média da OCDE. Também estamos acima da média na proporção de estudantes que apresentam mentalidade de crescimento de forma geral e, especialmente, quando perguntados se uma pessoa pode melhorar em Matemática com estudo e esforço.

Ao mesmo tempo, somente 27% dos estudantes brasileiros alcançaram pelo menos o nível básico de proficiência em Matemática no PISA 2022. Essa combinação me parece muito importante.

Temos muitos jovens que querem aprender e acreditam que podem melhorar, mas ainda temos dificuldade para transformar essa disposição em aprendizagem.

Talvez não seja suficiente tentar “motivar os alunos”. Precisamos criar situações em que eles consigam experimentar, na prática, que aprender é possível.

Um aluno que tenta, recebe uma devolutiva útil, entende onde errou, encontra uma nova estratégia e depois percebe que avançou começa a construir evidências sobre a própria capacidade. O aprendizado passa a influenciar a mentalidade, e a mentalidade pode ajudar a sustentar novos esforços.

A própria OCDE encontrou essa conexão. Professores que oferecem apoio e, ao mesmo tempo, propõem atividades cognitivamente desafiadoras ampliam a associação entre mentalidade de crescimento e desempenho. Explicar uma solução, conectar ideias, comparar estratégias e pensar sobre diferentes caminhos parece importar mais do que simplesmente dizer ao estudante que ele é capaz.

Esse ponto é importante porque mentalidade de crescimento não deveria virar mais um conteúdo para ser ensinado em uma palestra ou colocado em um cartaz na parede.

Um grande experimento realizado nos Estados Unidos, publicado na Nature, mostrou que uma intervenção curta sobre mentalidade de crescimento produziu efeitos positivos principalmente entre estudantes com menor desempenho, mas os resultados foram maiores em escolas nas quais o ambiente e os colegas reforçavam aquela forma de pensar. O contexto fazia diferença.

Para mim, isso aproxima bastante o tema da prática da escola. Podemos influenciar a mentalidade dos estudantes quando tornamos o progresso visível, utilizamos avaliações para orientar os próximos passos, oferecemos feedbacks que ajudam a melhorar, mantemos expectativas altas com apoio adequado e criamos novas oportunidades para que o aluno tente depois de errar.

Também podemos fazer o contrário. Quando um estudante passa anos acumulando dificuldades, recebe atividades que não consegue realizar, escuta que “não é bom em Matemática” ou percebe que ninguém espera muito dele, começa a construir outra explicação para o próprio desempenho. Talvez passe a acreditar que simplesmente não consegue aprender.

Isso é ainda mais relevante para os estudantes em maior vulnerabilidade. A OCDE mostra que mentalidade de crescimento também acompanha desigualdades socioeconômicas. Em diferentes análises, estudantes mais favorecidos aparecem com maior frequência acreditando que suas capacidades podem se desenvolver. No Brasil, essa diferença também é importante.

Por isso, trabalhar mentalidade não substitui ensinar bem. Na verdade, as duas coisas parecem estar muito mais conectadas do que às vezes tratamos.

O estudante precisa acreditar que pode aprender, mas também precisa encontrar uma escola capaz de ajudá-lo a comprovar isso. Talvez uma das experiências mais transformadoras que a educação possa oferecer seja justamente esta.

Um jovem perceber, a partir do próprio resultado, que hoje consegue fazer algo que algum tempo atrás não conseguia.

A partir daí, muda o desempenho. E pode mudar também a forma como ele passa a olhar para si mesmo.